O PT se colocou, desde que chegou à presidência da República, em 2003, numa equação política que tem como característica inerente, a instabilidade. Nascido dos movimentos populares, o Partido dos Trabalhadores foi pavimentando o caminho para a ascensão ao poder constituído mediante a absorção de elementos programáticos e ideológicos à direita do espectro político, bem como mediante a consolidação de lideranças com perfil cada vez mais marcado de conciliação de classes. Agora, quando alcança o décimo terceiro ano de governo do País, sua equação começa a apresentar os sinais mais destacados da instabilidade que está em seu DNA.
Havendo paulatinamente se afastado dos movimentos populares e se desfeito das agendas - ainda que reformistas - da esquerda, o PT não apenas tornou-se palatável às classes médias e dominantes, como logrou o silêncio e a complacência das classes populares. Combinado com a conjuntura econômica favorável, foi possível, por um curto período distribuir a estas uma pequena fração do bolo que crescia. O contrário do que, se diz, Delfim Netto preconizava.
Estalada a crise internacional, a opção política redundou numa política econômica ambivalente, que, ao mesmo tempo que reafirmou a política fiscal pró-cíclica, deixou de implementar medidas de regulação financeira que poderiam minimizar o impacto da crise sobre o País, mas que afetariam a rentabilidade do setor.
Quando a maré da crise finalmente aportou às terras de Pindorama e o crescimento econômico refluiu - ou, como os advogados do desenvolvimentismo usam, esgotou-se o “modelo de desenvolvimento” - a classe dominante apresentou sua fatura: o ajuste típico brasileiro se impôs aos trabalhadores. Então, o seu efêmero representante governamental teve sua política “redistributivista” desautorizada. E é aí que a equação política apresenta de modo mais claro a sua instabilidade.
E agora? Como o governo está “rodando” essa equação? Eis uma tentativa de compreensão. O governo apresenta hoje uma clara preferência por apostar numa aproximação com as classes dominantes, como forma de equilibrar a balança política, muito mais do que numa aproximação com as classes populares e os movimentos dos trabalhadores. Afastado destes, severamente desmobilizados, seja pela efetividade dos programas pseudo-redistributivos, seja pela cooptação das suas lideranças, parecem incertos ao governo os ganhos decorrentes de uma reaproximação com este campo, cuja neutralidade e desmobilização foram tão arduamente cultivados por tanto tempo. Trata-se, aqui, de forças que dificilmente voltarão a assumir um papel ativo de apoio, mas que também não se colocarão como adversários - na leitura do governo.
Por outro lado, o governo reaproxima-se das classes dominantes, mediante o incessante - e aparentemente inútil - anúncio de medidas que atendem unicamente aos seus interesses, pois lhe parece mais certo o duplo ganho da neutralização das forças políticas desestabilizadoras e do apoio de forças capazes de mantê-lo como “administrador dos negócios da burguesia”, nas palavras de um velho filósofo.
Em suma, no jogo matemático, a manutenção do governo parece estar assentada mais na consolidação das neutralidades do que na contraposição de forças, para a obtenção de uma estabilidade que mantenha o PT no governo.
Para as forças historicamente dominantes, a exigência da apresentação da conta do ajuste aos trabalhadores é práxis consolidada, especialmente no Brasil. É também movimento de aproveitamento da oportunidade de calibre do garroteamento nas forças políticas instituídas da esquerda, sistematicamente trabalhadas neste breve período de redemocratização.
Para as forças populares e de esquerda, contudo, é tempo de reconstituição. De reconstituição a partir de novas bases, pois que as “velhas” já disseram ao que vieram e, não havendo colaborado para a abertura de caminhos para a transformação social, tão somente a atrasarão. Afinal, o que não avança, retrocede, não é mesmo?