segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Visão do trabalho por função e por processo: contradição ou complementaridade?

Numa entrevista, a  jornalista pergunta ao delegado responsável por prisões de narcotraficantes:
  • Daqueles que o Sr. vem prendendo, quantos permanecem presos? O Sr. acompanha estes dados?
E o delegado responde:
  • Não, não acompanho. Eu fico focado na realização do meu trabalho, que é investigação e entrega à Justiça. Dedico meu tempo e esforços para isto.
A atitude que a resposta do delegado revela é adequada? Ele faz muito bem em permanecer focado no seu trabalho? Ou ele deveria se questionar sobre os efeitos, sobre o que acontece quando ele termina o seu trabalho e a partir do seu trabalho? Esta cena ilustra uma importante diferença, entre visão funcional e visão processual do trabalho.
Podemos compreender o trabalho como algo complexo (isto é, que contém partes discerníveis) e temporal (isto é, cujas partes estão assimetricamente relacionadas, são fases, etapas numa sequência).
Sob esta caracterização, há duas formas de se tematizar o trabalho. Numa, que chamaremos de processual, consideramos as relações externas de cada fase, ignorando a complexidade de suas relações internas. Estamos ocupados em apreender como uma fase encadeia-se noutra, como o todo resultante deste encadeamento relaciona-se com o contexto em que está incluído (externalização da complexidade). Noutra, que chamaremos de funcional, consideramos as relações internas em cada fase, abstraindo da interface que estabelece com outras fases, voltando-nos à compreensão de como as relações internas da fase ocorrem (internalização da complexidade). Assim, aquela é uma visão processual do trabalho. Esta, uma visão funcional.
A distinção é bastante abstrata. Uma analogia pode ajudar. Pensemos no trabalho envolvido em produzir caixotes de madeira. A partir de madeira bruta ou tábuas, cortam-se pedaços. Após, fixam-se pedaços uns nos outros (possivelmente com pregos, colas, etc). Cortar, colar e martelar são funções. Produzir o caixote combinando o exercício coordenado destas funções é o processo. E, desde já é de se notar que apenas sob esta perspectiva do trabalho transformador questões como "para quem é este caixote?", "para que ele será utilizado?", "é o caixote o melhor produto?" fazem sentido.
Esta analogia também permite ressaltar outro aspecto característico da visão funcional, uma certa abstração de propósitos ou finalidades mais gerais em que aquele trabalho se insere: podemos cortar, colar e martelar tanto para fazer caixotes, quanto para outros processos (construir casas, por exemplo). Quando, contudo,  atentamo-nos para o processo de produzir o caixote, para o desenho que o caixote deve ter, para a sequência de fases que devem ser realizadas para que, ao final, tenhamos um ... caixote, ipso facto, estamos desconsiderando em que consiste o bom martelar, a virtude no corte da madeira, etc.
A união destas diferentes formas de ver o trabalho - matricial, para batizar esta nova forma - o desenvolvimento harmônico delas, é condição essencial para uma melhor compreensão e intervenção no domínio do trabalho transformador. Com efeito, ambas formas trazem benefícios e têm limites. A combinação delas, soma os benefícios e reduz os limites que cada uma, isolada, tem.
Assim, é muito bom o delegado estar focado no que ele faz, na função que exerce (visão funcional do trabalho), mas não seria ainda melhor se ele dividisse seus esforços e atenção também com o que ocorre no entorno, antes e após ele fazer seu trabalho, ou seja, se ele também se ocupasse com a efetividade do seu trabalho (o que implicaria uma visão processual do trabalho)? Em síntese: não seria melhor uma visão matricial?

A "moral da história" da entrevista com o delegado é que falta-lhe a visão matricial. A visão funcional e processual são complementares, não contraditórias entre si. A visão funcional, que implica foco intensivo e desvelamento das complexidades internas ao trabalho viabiliza virtudes intrínsecas (martelar bem, cortar madeira bem, fazer inquéritos bem). A visão processual, por sua vez, implica foco extensivo e desvelamento das complexidades nas interfaces dos trabalhos (agora tomados como unidades simples, para efeitos de compreensão), remissão ao resultado mais geral, o produto. Trata-se, agora, de fazer bem um bom caixote de madeira, que deve ser bom para alguém. Trata-se, agora, de realizar inquéritos que viabilizem a justiça.

2 comentários:

  1. Posto desta forma, me faz pensar se um professor não deveria se preocupar com a formação do sujeito também como cidadão, além da formação técnica que lhe é obrigação primária. Numa visão matricial o trabalho de ensinar deveria ser pensado não só no ato de ensinar, mas também nos atos resultantes do processo de ensino, ou seja, na aplicação fim do conhecimento transmitido. Como se preocupou Niels Bohr com o resultado dos ensinamentos transmitidos à Werner Heisenberg, acerca da física nuclear, há algum tempo atrás, que quase resultou na fabricação de bombas atômicas pelo partido nazista.

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  2. Olá Cristiano. Creio que teu comentário refere-se à efetividade de uma ação transformadora (os efeitos que ela gera, para além do produto imediato). O post explora o exemplo para ilustrar uma diferença que permite, penso, introduzirmos a ideia da efetividade que trazes ao debate. Trata-se, ao fim e ao cabo, de adotar uma atitude de avançar em extensão, uma perspectiva mais holística da transformação (trabalho, processo). Assim, julgo que o professor deveria, sim, ter a preocupação a que te referes. Isto porque, antes de sermos professores (ou pais, ou irmãos, ou torcedores do Criciúma, ou qualquer outra coisa), somos seres em relacionamento uns com os outros, e seres incompletos, em desenvolvimento. Nossa capacidade de abstração, de aprofundamento e divisão do conhecimento - perspectiva cartesiana que nos trouxe bastante longe (comparemo-nos século 16!) - tem limites (e se buscarmos o Discurso do Método, de Descartes, ele mesmo atentava para isto), limites que nos fizeram avançar (para alcançá-los), e que agora devem ser superados. Uma nota colateral: a revolução tecnológica permite hoje, à ciência - e sabes bem disto - computar o que até bem pouco tempo era incomputável (por falta de ferramenta, não pela natureza da questão). É o campo da ciência da complexidade. A mim parece que trata-se de um novo paradigma de ciência, em relevância e efeito similares à revolução cartesiana. Obrigado pelo comentário. Um abraço.

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